quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Membro fantasma

Quão forte precisa ser uma ilusão para afetar nossa mente? Atualmente vivemos a febre do cinema 3D e pagamos caro para termos momentos de ilusão. Mas será que são necessários recursos tão sofisticados para termos uma ilusão que afete nossa mente? E estas ilusões servem apenas para nosso lazer?

Não. Você alguma vez já ouviu falar de membro-fantasma?

É um fenômeno bastante peculiar, que é relatado desde o século XVI. Trata-se da percepção continuada que algumas pessoas têm de seus membros que foram amputados. Ou seja, estes membros não estão mais ligados ao corpo, mas mesmo assim parecem que ainda estão. Por exemplo, alguém pode perder uma perna e continuar a senti-la. Às vezes, além de ter a sensação da existência da perna, a pessoa ainda sente dores nesta perna que não existe mais!


Figura 1. Membro fantasma.  A mão foi amputada do corpo, mas mesmo assim ainda ocorre a percepção sensorial de sua existência. Fonte: Phantom Mirror



Isto ocorre porque corpo é constantemente bombardeado por estimulações sensoriais que nos informam sobre as condições do ambiente externo e interno. Cada órgão dos nossos sentidos é preparado para receber, interpretar e transformar estas estimulações em impulsos nervosos. Estes chegarão até o cérebro e lá serão processados. A partir disto teremos consciência do que se passa no ambiente e poderemos agir de forma adequada.

Estas informações sensoriais do corpo são enviadas e processadas num mapa sensorial no nosso cérebro. Este é representado por um homúnculo sensorial. Quanto mais importante (ou utilizada) é uma parte do corpo, maior é sua representação no cérebro (ver Figura 2).


Figura 2. Homúnculo sensorial. Note a grande diferença na representação do polegar em relação ao tronco. Isto ocorre porque o polegar necessita de maior sensibilidade que o tronco para desenvolver bem suas tarefas. Fonte: Wikipedia


Para entender do que falamos, olhe para sua mão. Leia isto e tente fazer depois: feche os olhos e tente imaginar algum objeto muito pesado em cima dela. Este objeto faz pressão e o peso dele aumenta aos poucos. Em determinado momento você sentirá dor. Este processo se auto-alimenta, com a sensação de maior peso na sua mão causando o aumento da sensação de dor. Para acabar com isto bastará você tirar o peso de cima da sua mão.

Agora imagine que sua mão não está mais presente ao seu corpo. Como você controlaria isto?

Algumas pessoas perderam a mão em situações como esta, ou, por exemplo, com a mão fechada. A dor fantasma pode ocorrer por falha nesse sistema de retroalimentação. Imagine que, numa situação como a do exemplo acima, uma pessoa perca a mão. O cérebro enviaria sinais para a área amputada e não receberia feedback. Ou seja, a informação de  quão forte é a sensação de peso na mão não chega ao cérebro. Dessa maneira, nosso sistema nervoso segue processando que há um objeto pesado sobre a mão e ao não receber informação se esse peso foi ou não tirado de lá, a dor continua. Enfim, é uma dor construída pela sua mente para interpretar esta situação.

Interessante nestes casos é que se antes da amputação o membro já estava paralisado, a pessoa sente-o paralisado após remoção. Se o membro se movimentava, sente-o movimentar. E se este membro estava doloroso por algum motivo, após a amputação ele sentirá ainda mais dor quando ele tiver a sensação fantasma deste membro se movendo.

Sentir dor é algo desagradável. Imagine-se sentindo dor constantemente em alguma parte de seu corpo. Agora pense que esta parte não existe mais, e mesmo assim ainda dói! Este problema foi encarado de diversas maneiras. Um cientista chamado Vilayanur S. Ramachandran tentou resolver este problema com um equipamento que cria um fenômeno ilusório bastante interessante. Trata-se de uma caixa de espelho (Mirror Box) em que há feedback visual para o movimento do membro ausente (ver figura abaixo), enganando-se assim o cérebro.


Figura 3. A caixa de espelho utilizada. Ela é formada por dois compartimentos separados por um espelho vertical. O individuo coloca sua mão real em um deles e se posiciona como se estivesse com as duas mãos na caixa. O espelho cria a ilusão que a mão fantasma ressurge, ou ressuscita (nas palavras de Ramachandran). Com isso a pessoa pode ilusoriamente mover suas duas mãos. Fontes: esquerda - Artigo Ramachandram (direto para pdf) e direita: Mirror Box 


Ramachandran testou este equipamento em 10 pessoas que tiveram suas mãos amputadas. Cada paciente observou o reflexo de sua mão intacta no espelho e o equipamento causava a ilusão que o paciente tinha novamente as duas mãos. Foi-lhes pedido que realizassem movimentos com “as mãos” durante 15 minutos diários, por 3 semanas. 6 pacientes ao olharem o reflexo no espelho conseguiram sentir seu membro fantasma se movendo. Mas isto não ocorria com os olhos fechados, atestando que o efeito era devido ao equipamento. 4 pacientes ao abrirem suas mãos fantasmas sentiram alivio da dor (pode ter ocorrido pelos mecanismos explicados no exemplo do peso em cima da mão). Ainda, ao serem tocados na mão real, 3 pacientes sentiram o toque também na mão fantasma! Uma possível explicação é uma ativação em ambos os hemisférios, que é muito fraca nos não amputados, mas nos indivíduos com membros amputados ela se torna forte devido a ausência de estimulação constante.

Além do que foi relatado acima, Ramachandran também fez outros testes. Ele pedia que os pacientes fechassem seus olhos e dissessem onde ele os tocava com um cotonete. Quando tocado no lado do corpo sem o membro amputado, o paciente sentia o toque apenas a região tocada pelo cotonete. Porém, ao estimular a face do lado do membro amputado, alguns pacientes relataram que também seus membros fantasmas estavam sendo tocados.


Figura 4. Esquema da relação topográfica entre toque no braço/ombro e sua relação com a face. Ao ser tocado na face o participante relatava sentir sua mão fantasma. Esta migração de neurônios  foi confirmada através de MEG – magnetoencefalografia (uma de várias técnicas de imageamento cerebral). Fonte Phantom face 


Por que isso acontece?

Quando uma parte do corpo é perdida, ocorre uma invasão neuronal de áreas vizinhas no homúnculo sensorial (Figura 2). Como a região responsável pela face está bem próxima da região da mão, há uma reorganização (ou “remapeamento”) sensorial, com os neurônios que antes representavam a mão agora são recrutados pela face. Esta hipótese foi confirmada através de ressonância magnética. Foi observado que quando a face do lado amputado era estimulada ocorria uma ativação da área facial e também da área correspondente à mão. O mesmo não acontecia do outro lado do corpo.


Figura 5. Figura esquemática da migração neuronal. Na figura A nota-se que "a mão" está presente. Após a amputação, a área da face avança sobre a região responsável pela mão, fazendo um “remapeamento”. Fonte: Homunculus


Em suma, a pesquisa mostrou-se válida para tratar alguns pacientes e suas dores. Também lançou algumas bases para se entender de forma mais precisa este fenômeno intrigante. Ainda, mostrou que há plasticidade neuronal mesmo no cérebro adulto, hoje pode parecer banal falar isto, mas o artigo foi publicado originalmente em 1996.

A simplicidade da técnica mostra que também é possível nos iludir com coisas simples, e melhor, isto pode nos trazer benefícios.

Quer baixar o texto? Clique aqui.

Bruno Marinho de Sousa
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Para entender mais do assunto:

Ramachandran, V. S. & Rogers-Ramachandran, D. Synaesthesia in Phantom Limbs Induced with Mirrors. Proceedings: Biological Sciences, 263, No. 1369, pp 377-386, 1996. (Artigo em inglês, trata-se da pesquisa mencionada no texto).

Ramachandran, V. S. & Hirstein, W. The perception of phantom limbs The D. O. Hebb lecture. Brain, 121, pp 1603-1630, 1998. (Artigo em ingles, também mencionado no texto).

Demidoff, A. O.; Pachecoa, F. G.; Sholl-Franco, A. Membro-fantasma: o que os olhos não vêem, o cérebro sente. Ciências & Cognição, 12, pp 234-239, 2007. (Texto em português, os autores fazem um apanhado geral do assunto. O texto é de fácil acesso).

No site youtube é possível encontrar diversos vídeos com a demonstração da técnica com o Mirror Box. Abaixo temos um exemplo para a perna fantasma.


10 comentários:

  1. olha.. nao sou nenhum especialista no assunto, nem li 100% dos textos, mas a dor, ou outros sentimentos na verdade vem porque nada disso é criado no membro, e sim no cérebro. tanto que muitas vezes, mesmo em sonhos, pode-se sentir toques, temperaturas e todos os outros tipos de sentidos. uma das provas disso é que existe uma cobra com um veneno que causa dores absurdas na presa. existem casos de pessoas que amputaram seus membros para pararem de sentir essa dor, mas isso nao faz a dor parar, porque o veneno está afetando o cérebro, e nao o membro diretamente.

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  2. Muito obrigado pelo comentário, Ninguém. Esperamos que tenha gostado do blog. Até mais, Bruno.

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  3. Me submeti a uma desarticulaçao do quadril a sete meses e sinto minha perna constantemente, durante todo o dia sinto-a dormente na coxa e no pe, nao tenho a sensaçao da canela... As vezes sinto 'choques' no calcanhar e coceiras na coxa. quando mando comandos para mexer meu pé eu o sinto formigar... e é tudo tao real! Fui portadora de um tumor agressivo no treço distal do femur(osteossarcoma), com 11cm de comprimento... desarticulei 11 meses apos os primeiros sintomas e acreditei que a dor sumiria... ainda nao uso protese e nao sei se isso influencia para a diminuicao ou aumento da sensaçao do membro fantasma. Gostaria de saber sobre formas de diminuir essa sensacao tao incomoda.

    Obrigado, Dhe.

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  4. Oi Dhe,
    tudo bem? Obrigado por ler nosso blog e pelo comentário. A primeira coisa que sugiro, e que você já começou a fazer, é se informar sobre o problema. Como você já deve ter se dado conta, seus sintomas são normais e reais! Eles são até mesmo esperados. Também sugiro que converse com outras pessoas que passaram por algo similar ao seu caso, pergunte sobre como se trataram, como lidaram com isso e etc.

    Para diminuir a sensação incômoda de forma efetiva, o melhor é procurar o médico que te atendeu. Explique seus sintomas a ele e pergunte como resolver. Ou então procure algum ortopedista de sua confiança. Tire todas as suas dúvidas! Qualquer outra coisa que eu te propor será irresponsabilidade de minha parte.

    Talvez até mesmo no hospital em que você fez a cirurgia tenha uma equipe que saiba lidar com isso, com especialistas no assunto, como psicólogos e principalmente fisioterapeutas.

    Os fisioterapeutas irão te passar alguns exercícios que ajudarão a diminuir estas sensações incômodas e também a se adaptar a prótese. E acho que a prótese poderá te ajudar com estas sensações. Mas levará um tempo (não sei quanto), pois seu corpo precisa se adaptar a esta nova condição (desarticulação, depois prótese). A técnica que aparece no vídeo é apenas uma de várias possibilidades para o tratamento.

    Boa sorte no seu tratamento e melhoras. Desculpe não ser muito específico, mas espero ter ajudado,

    Bruno.

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  5. meu nome e luana,tenho 25 anos de idade,e amputei minha perna ha 1 mes,nossa eu nao consigo dormir a noite,o membro fantasma,me incomoda muito,eu nao fico a vontade nos lugares,pois eu sinto uma queimaçao,e uns furmigamentos,e muito ruim isso

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    1. Olá Luana,
      obrigado pela visita ao nosso blog e por comentar. Tomara que esteja tendo um tratamento adequado. Se utilizar a técnica do texto, volte para comentar.
      Até mais,
      Bruno.

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  6. luana.estou em tratamento de quimeoterapia.devido um osteossarcoma,amputei a perna,nada disso me abalou,nem a noticia do cancer e nem da amputaçao,pra mim,foi uma noticia normal,nao reclamo de nada da vida,sou feliz de todo jeito,pois DEUS e maior na minha.sou forte de espirito,nada me abala,nesse mundo,pode vir tempestades,trovoes,mais minhas maos estao seguras nas maos de DEUS.sou uma pessoas felississima.mesmo com tantos problemas,sou sorridente,alegre,de bem com a vida.nada desse mundo me abate.sou muito forte de espirito.um abraço para todos.e um conselho.seja feliz,por mais dificil que seja o seu problema.e primeiro lugar DEUS,com deus vc nao tera medo de nada.

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  7. Eu tive um membro amputado á quatro anos,sinto dores até hoje,essa matéria foi de suma importância,me esclareceu tudo,muito obrigado.

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  8. Meu marido tem os dedos da mão direita amputados e ja fazem 6 anos tem um mes que ele esta dormindo e acorda me perguntado desesperado dos dedos ai passa alguns segundos ele cai na real mais alguem passa por esse tipo de situação?

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    1. Olá,
      seu marido está com acompanhamento? Se possível, procure um neurologista para receber o tratamento adequado!
      Até mais

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