quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O mistério do sorriso de Mona Lisa


O quadro de Mona Lisa, pintado entre 1503 e 1506, se encontra atualmente no Museu do Louvre em Paris e é considerado a obra de arte mais famosa e importante da história. Parte disso se deve ao mistério do seu sorriso. De interpretação dúbia, ele já foi visto como inocente, maternal, convidativo, triste e até lascivo. E isto tem intrigado a comunidade artística e científica ao longo dos tempos.

Fig. 1: Mona Lisa, quadro de Leonardo da Vinci exposto no Museu do Louvre em Paris, França. Imagem retirada do site: http://escafandro.blogtv.uol.com.br .

Muitos investigadores tentaram explicar o mistério ao redor deste sorriso. Sigmund Freud interpretou o sorriso de Mona Lisa como uma atração erótica de Leonardo da Vinci em relação a sua mãe

A professora Margaret Livingstone, da Universidade de Harvard, afirmou que o sorriso da Mona Lisa desaparece quando olhado diretamente. Isso acontece porque usamos a visão foveal, acurada para cores e detalhes, melhor para perceber freqüências espaciais altas. Como o sorriso está quase totalmente em freqüências espaciais baixas, a visão periférica é melhor para percebê-lo, já que processa com mais eficiência esta faixa do espectro visual. Sendo assim, o sorriso só se torna aparente se o observador fixar a atenção nos olhos ou em outra região da face.

Isto está relacionado com os diferentes canais de transmissão da informação, como mostrou Luis Martinez Otero, do Instituto de Neurociências de Alicante, Espanha. As células da retina são especializadas para transmitir diferentes categorias de informação: tamanho, brilho, localização, freqüência espacial, etc. E como o olho humano manda sinais misturados ao córtex, um canal de transmissão pode sobrepor-se ao outro. Por isso, às vezes vemos o sorriso, outras vezes não. Um dado interessante desta pesquisa é que os participantes começavam a ver o sorriso mais aparente a partir do momento que viam o retrato num tamanho aumentado ou de perto. Isto sugere que as células da retina que completam a visão da região do ponto cego convergem informações da mesma maneira que a visão periférica.

Fig. 2: Aplicação de ruído visual feito por Kontsevich e Tyler (2004).
 
Já Christopher Tyler e Leonid Kontsevich, do Instituto de Pesquisa do Olho Smith-Kettlewell de São Francisco, afirmam que a aparente mutabilidade do semblante da Mona Lisa se deve, em parte, a uma fonte diferente: o ruído randômico do sistema visual, uma atividade cerebral natural e ininterrupta de descargas neurais de padrão aleatório que pode ser comparado, numa analogia distante, ao efeito causado por um canal de TV mal sintonizado. Ele também pode ser causado por flutuações de fótons que atingem as células foto-receptoras. Estes pesquisadores sugerem que o estado emocional da Mona Lisa é codificado por poucos pixels que se encontram nos cantos de sua boca. Um ruído que aumenta o canto da boca, passa a impressão de felicidade e um ruído que rebaixam seus lábios a faz parecer mais triste.  

Outra tentativa de desvendar o mistério do sorriso da pintura foi feita pelo grupo de pesquisa de Nico Sebe, da Universidade de Amsterdã, em conjunto com colaboradores da Universidade de Illinois, que tentou revelar o famoso sorriso da Gioconda através de um algorítimo desenvolvido e de um software apropriado para reconhecer emoções. A expressão emocional é determinada pela comparação de dados dos traços faciais dados, como curvatura dos lábios e rugas ao redor dos olhos, que são cruzados entre o quadro de Da Vinci e de um banco de faces de mulheres jovens. A análise sugere que a Mona Lisa estava 83% feliz, 9% angustiada, 6% assustada e 2% chateada.

Mais recentemente, pesquisadores do Centro de Pesquisa e Restauração de Museus da França e do European Synchrotron Radiation Facility afirmaram que o efeito de mistério se deve à técnica que Da Vince utilizava, o sfumato, responsável pelo efeito esfumaçado. Ele chegava a aplicar 40 camadas de esmalte sobre a tela que, junto a outros pigmentos, cria borrões e sombras nos lábios que faz com que o sorriso pareça ser quase imperceptível quando visto de frente. O estudo foi conduzido por meio de espectometria por raios x fluorescentes, que não necessita da retirada de amostras.

Será que Leonardo da Vinci pretendia causar esta confusão nos cérebros dos observadores, sem mencionar os dos cientistas? Provavelmente. Em um de seus livros ele disse que estava tentando pintar expressões faciais dinâmicas, porque era isto que ele via nas ruas

Por fim, vale lembrar que as visões científicas tentam desmistificar técnicas que os pintores têm utilizados há muito tempo, e os achados não desmerecem de forma nenhuma o trabalho destes artistas.

Rui de Moraes Júnior

Para saber mais:
  • Kontsevich, L. L., & Tyler, C. W. (2004). What makes Mona Lise smile? Vision Research, 44, 1493-1498.
  • Livingstone, M. S. (2000). Is it warm? Is it real? Or just low spatial frequency? Science, 290, 1299.

    10 comentários:

    1. pra que essa expectativa toda em desvendar o que se passa por tras do sorriso de mona lisa, que tal estudar mais pra desvendar a cura pra essa ou aquela doença!

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      1. É o típico comentário do chato! Reclama de tudo...ignora tudo, sempre falando que existem coisas mais importantes como a fome, doenças e política.

        Quando for um dia, comprar um carro 0km, por exemplo, não seja tão egoísta, pensando em si próprio e se presenteando com um bem que apenas te servirá para locomoção.

        Faça o seguinte; compre um carro velho, que atenda à sua necessidade de locomoção, e a diferença do dinheiro DOA...

        abs

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      2. bem com esse pensamento se encontra o nosso governo, que gastou milhoes para contruir um "lugarzinho" para a copa, etc, mas quando se trata de ajudar familias pobres a saírem de locais com risco de desmoronamento, trafico de pessoas e de drogas "eles" tem coisas mais importantes para resolver, como OLIMPIADAS...um exemplo mais simples? mesma coisa quando vemos uma pessoa se preocupada em comprar roupas caras,carros do ano sem ter uma casa propria.
        o Brasil precisa se preocupar 1º com a "casa" e DEPOIS de organizada se preocupar com o "carro do ano" e "roupas caras".

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    2. Caro Anônimo,

      Perdoe-me a sinceridade. Acredito serem extremamente importantes as pesquisas médicas que investigam a cura do câncer e da AIDS, células tronco, doenças degenerativas... Mas sua colocação, do modo como foi feita, se mostra superficial. Ela retoma uma já fatigada (porém não esgotada) discussão dentro da Filosofia da Ciência sobre pesquisa básica VS. pesquisa aplicada, debatida em todo centro universitário sério, independente da área do conhecimento. Mas não vou entrar neste assunto, prefiro me pautar em fatos, resultados e exemplos.

      1. Em 1966, o presidente estadunidense Lyndon Johnson cortou as verbas para a pesquisa básica. Isto culminou com uma década relativamente pobre em avanços científicos e tecnológicos, que contrastava com a década passada. Este período tinha se caracterizado por altos investimentos em ciência básica (“Efeito Sputnik”), que teve um retorno para a aplicação; na área da saúde, por exemplo: produção de vacina de pólio, cirurgia com parada cardíaca, troca de válvulas cardíacas, hemodiálise renal, transplante renal, tratamento da hipertensão, etc.

      2. Ainda na área médica, que foi a que você mencionou, recorto um trecho de um texto de Oswaldo Ubríaco Lopes (ICB-USP): “... Conroe (1976), com a ajuda de um excelente conjunto de consultores, analisou os dez maiores avanços em clínica e cirurgia cardiovascular e pulmonar dos últimos 30 anos, descobriu que, entre 529 trabalhos considerados essenciais ou cruciais para os avanços médicos naquelas áreas, 217 (41%) eram primariamente básicos na sua origem”.

      3. E lembrando que o objetivo da pesquisa aplicada é obter um dispositivo útil, de modo que a compreensão total do fenômeno estudada não é necessária, retiro um trecho de outro texto, de Oscar Sala (IF-USP): “A pesquisa para o desenvolvimento científico, entretanto, deve objetivar o apoio à geração do conhecimento científico, à criação científica e à preparação de recursos humanos adequados para essa finalidade. Preocupa-se então com a pesquisa básica e garante a sua autonomia, que é fundamental para a educação científica e o avanço do conhecimento. A pesquisa básica é um tipo de seguro para o futuro; é uma das fontes para as inovações tecnológicas do amanhã e da compreensão mais profunda do universo em que vivemos.”

      4. Acredito que Watson e Crick não imaginavam a gama de aplicações aplicadas a partir do seu modelo da molécula de DNA. Se pessoas como Franklin, Hans Christian Ørsted, André-Marie Ampère, Faraday, Tesla, Grahan Bell ... não tivessem desenvolvidos pesquisas básicas sobre eletricidade e eletromagnetismo, você não estaria no conforto de sua casa, lendo esta mensagem na tela de seu computador. Tente imaginar o mundo moderno sem a física clássica de Newton ou a Teoria da relatividade de Einstein.

      Se não podemos estudar os mistérios por trás de um sorriso por simples curiosidade, então também devíamos acabar com toda atividade de fundo artístico. Do mesmo modo, também deveríamos acabar com a Filosofia, para quê pensar? Para que servem Filosofia, Arte e Ciências Básicas, se elas não “curam essa ou aquela doença”? Em resumo, e concluindo, não se deve desprezar um trabalho só porque ele não busca fontes renováveis de energia ou a cura do câncer!

      Rui

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    3. É bem interessante sabermos mais dessas informações e pesquisas feitas para esse quadro que nos deixa um questionamento meio inexplicável sobre seus segredos.

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    4. E embora exista grande esforço científico, acredito que este questionamento vai se perpetuar! O encanto deve estar aí ... Obrigado pela visita e comentário!

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    5. Eu acho que assim com é até hoje, tanto Mona Lisa quanto qualquer outra coisa ligada diretamente a Leonardo Da Vincci sempre serão cercados de muitos mistérios. Nascerão nossos filhos, netos e bisnetos, e sempre haverá a interrogação: o que se passava pela mente brilhante de Da Vinci?
      É exatamente essa a graça, a pitada pitoresca que ele tem. Se não fosse cercado pelos mistérios,pelas interrogações, pelos questionamentos, ele seria como qualquer outro pintor,pensador ou matemático comum, lunático e igualmente anônimo. O que dizer, por exemplo, da madona das rochas (Madonna of the Rocks), que assim como Mona Lisa é cercada de mensagens ocultas, pinceladas meticulosamente bem colocadas de modo a se passar despercebida essa ou outra imagem ou figura?
      Nem mesmo os mais brilhantes pesquisadores foram capazes de desvendar tudo que cerca a mente de Da Vinci. Ele é sem dúvida o homem mais misterioso de toda a história, só não é mais sábio, claro, que o Senhor Jesus, quando esteve aqui na terra.

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    6. Eu estou lendo o livro "O código da Vinci" aonde fala-se muito das obras de Leonardo da Vinci. Estou apaixonada pela história e agora me interessei também em conhecer mais a fundo a história de Leonardo da Vinci e suas obras.

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    7. Acho interessante a obra de arte Monalisa, mesmo tendo esse mistério. Me interessei muito. Gosto muito, e acho uma obra de arte MARAVILHOSA !

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    8. Gostei muito de saber sobre o segredo da Monalisa. Gostei mais aida da resposta pro anônimo!!! Hahahahaha povinho ignorante.

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