quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Ritmos circadianos e alterações no humor

“Tudo bem?” 
“Na correria...” 

É cada vez mais comum que, como parte da tal "correria", as pessoas modifiquem seus horários para se alimentar e dormir. Às vezes, adiando ou até mesmo excluindo uma refeição e algumas horas de sono. Essas alterações podem ter um impacto direto em nossos estados emocionais mais duradouros. 

É o que sugere pesquisa realizada na Universidade da Califórnia e publicada nesta semana. Animais geneticamente modificados sem o principal gene que regula o ritmo circadiano apresentaram comportamentos semelhantes aos observados na depressão e na ansiedade. Além disso, estes animais ganharam mais peso do que os animais do grupo controle, mesmo ingerindo a mesma quantidade de alimento, sugerindo que anormalidades metabólicas comuns na depressão estão associadas à alterações no ritmo circadiano.

Quer ler um comentário sobre a pesquisa? (em inglês)
https://www.sciencedaily.com/releases/2016/11/161129084345.htm

Quer ler o artigo? Abaixo a referência
Landgraf, D., Long, J. E., Proulx, C. D., Barandas, R., Malinow, R., Welsh, D. K (2016). Genetic Disruption of Circadian Rhythms in the Suprachiasmatic Nucleus Causes Helplessness, Behavioral Despair, and Anxiety-like Behavior in Mice. Biological Psychiatry, 80 (11), 827. DOI: 10.1016/j.biopsych.2016.03.1050

sábado, 28 de fevereiro de 2015

E qual é a cor do vestido?

No texto “A Luz e o Olho” abordamos como a luz de objetos e de fontes luminosas chega aos olhos, sua transformação em impulsos elétricos (pelo fenômeno de transdução) e o caminho percorrido por essa informação até chegar ao cérebro, onde é processada e interpretada. O resultado final dessa cadeia de processos é a percepção do mundo ao nosso redor.

Nem sempre essa percepção tem uma correspondência exata com a realidade física, então ocorre o que chamamos de ilusões. As ilusões são um material excelente para estudar o funcionamento do sistema perceptual. Já tratamos de algumas ilusões nos textos “Ilusão de Ponzo”, “Ilusões de imagens híbridas”, “Ilusão de Distorção Facial”, “Da minha janela eu vejo... uma grande de Hermann”. Além disso, cabe destacar que a percepção pode variar em função da cultura e entre os indivíduos dessa mesma cultura (como você e eu), o que foi apresentado no texto “Aos gregos o mar era violeta”.

Um exemplo interessante  de ilusão ganhou a internet nesses últimos dias. Uma postagem no site Buzz Feed com o título “What Colors Are This Dress? (em tradução livre, “quais as cores desse vestido?”) provocou grande reação na mídia, sendo que a postagem até esse momento tem quase 37 milhões de visualizações!

Figura 1. A imagem do vestido que ganhou a internet. Ao final desse texto está uma imagem do vestido com suas cores originais. Fonte: Buzz Feed


Ao ver a imagem, algumas pessoas relatam que ele é azul e preto (meu caso) e outras que ele é branco e dourado (caso do Leonardo e do Rui, também autores do blog). A discussão em torno das cores reais do vestido tem gerado muita polêmica e reações acaloradas, incluindo alguns artistas e atletas dando opiniões (confira alguns atletas aqui e alguns artistas aqui).

Qual a explicação dessa incongruência de percepções?

Figura 2A cor percebida do vestido pode ser modulada pelo contexto (fundo) no qual ele está inserido. Você acha que o vestido à esquerda é da mesma cor do vestido à direita? Essa imagem apresenta o original (centro) e variações à esquerda (para parecer branco-doutorado) e à direita (para parecer azul-preto). Fonte: Wired


Obviamente, para responder a essa pergunta devemos conhecer um pouco sobre a percepção de cores. É comum nos perguntamos se a cor que eu vejo é a mesma que outra pessoa vê. Essas imagens do vestido ajudam a colocar mais lenha na fogueira. Mas o que é a cor? Segundo Schiffman (2005):

“As sensações cromáticas são efeitos totalmente subjetivos produzidos pela luz refletida de certos comprimentos de onda do espectro visível sobre o sistema nervoso” (p. 85).
Ou seja, a visão de cores depende de como nosso cérebro irá interpretá-las.

Um dos fenômenos envolvidos na percepção de cores é a constância de cor. Nesse fenômeno, a cor de um objeto se mantém constante, apesar de mudanças sutis que possam ocorrer em sua luminância – luz refletida por ele. E um dos fatores que afetam a constância de cor é o efeito de fundo. Esse efeito é uma compensação das mudanças de iluminação dos objetos. Um exemplo simples, se você olha para uma camiseta vermelha iluminada pelo sol ao ar livre e pela lâmpada fluorescente de dentro de sua casa, não percebe diferenças no “vermelho”, apesar de existirem mudanças. Não percebemos isso porque toda a cena visual (fundo) mudou.

No caso do vestido se dá o mesmo: o fundo da imagem (contexto) modula a percepção da cor do vestido conforme realizamos uma compensação entre a luminosidade contextual e a cor do vestido. A divergência na percepção das cores (azul-preto ou branco-dourado) ocorre porque esse processo de compensação varia de pessoa para pessoa, fruto da história individual. Então, provavelmente as pessoas que enxergam o vestido branco e dourado interpretam a iluminação do ambiente como, por exemplo, vinda de uma lâmpada fluorescente (tom azulado) e assim realizam uma compensação ("extraem" o azul o vestido). Por outro lado, as pessoas que enxergam o vestido azul e preto (suas cores reais¹) interpretam a iluminação do ambiente como mais próxima do amarelo e, assim, o efeito de compensação é minimizado. Ou seja, você está compensando a cor do fundo e sua relação com a cor do vestido. 

Duvida do que explicamos? Basta olhar o GIF abaixo e talvez você já perceba o vestido nas duas cores antes citadas:

Figura 3. Agora consegue ver o vestido nas cores branco-dourado e azul-preto? Fonte: Wired

E para você, quais são as cores do vestido?

Figura 4. Qual a cor do vestido? Fonte: Como eu me sinto quando


Esperamos que o texto tenha deixado claro que as pessoas que enxergam o vestido dourado e branco (como dois de nosso autores) não têm problemas de percepção de cores, nem possui daltonismo. Inclusive, o daltonismo será tema de um próximo texto. Esse fenômeno da cor do vestido é resultado de um processo normal do funcionamento do nosso sistema visual, que precisa interpretar os sinais ambíguos do ambiente. Essa interpretação varia entre as pessoas em função de sua história de vida e nos mostra que a realidade que percebemos não reflete, necessariamente, a realidade física.


Bruno Marinho de Sousa, 
com a colaboração de Leonardo Gomes Bernardino 

Para saber mais:

Schiffman, H. R. Sensação e Percepção. Rio de Janeiro: LTC, 2005.

Wired: The Science of Why No One Agress on the Color of This Dress


¹O vestido é preto e azul, como na foto abaixo. Não acredita? Então clique aqui e/ou nessa reportagem da CNN. 

Figura 5. A cor real do vestido. Segundo os fabricantes ele não está disponível na cor branco-dourado. Fonte: Just Jared

domingo, 10 de agosto de 2014

Psicofísica Clínica



No texto O que é Psicofísica?, nós apresentamos esta área do conhecimento que busca relações entre a realidade do mundo físico e a experiência psicológica organizada por nossos processos mentais. Em um texto seguinte, Psicofísica no século XXI, fomos adiante e reafirmamos o papel da subespecialidade mais antiga da psicologia (inclusive anterior a ela) no cenário atual, em que as neurociências utilizam modernas técnicas para acessar o funcionamento cerebral em tempo real. Neste texto, para além do campo epistemológico, vamos falar da atualidade e importância da psicofísica em sua aplicabilidade clínica.

 A psicofísica clássica criou métodos robustos para estudar os processos sensoriais por meio de rigoroso controle experimental e de funções matemáticas, e com isso estabeleceu correlações entre a atividade cerebral e a perceptual. A partir disso, é possível inferir valiosas informações sobre o processamento mental, o desenvolvimento e funcionamento do sistema nervoso normal e como lesões e desordens patológicas o afetam. Isso permite, em muitos casos, avaliação, diagnóstico, monitoramento e reabilitação de diversos quadros clínicos.

Você mesmo provavelmente deve ter realizado alguns testes fundamentados nos pressupostos psicofísicos sem se dar conta, como a audiometria e o teste de Snellen de acuidade visual (aquele tradicional "exame de vista"; Figura 1) por exemplo. Testes como estes medem a quantidade de energia que é necessária para um órgão sensorial detectar ou identificar um estímulo. Esta energia pode ser mecânica, como o movimento do ar no caso da audiometria, eletromagnética, como no caso das ondas luminosas no teste de visão, ou de outra modalidade, como química e térmica. Pelo fato destas medidas de limiares serem muito acuradas, alterações podem refletir danos teciduais nos órgãos do sentido medido. E mais, estes testes psicofísicos clínicos geralmente são bons instrumentos para diagnóstico precoce, pois acusam alterações de doenças sistêmicas e do sistema nervoso antes que alterações anatômicas e fisiológicas possam ser identificadas. E os mesmos instrumentos podem ser utilizados para monitorar a evolução do quadro e o efeito do tratamento porque, em geral, são de baixo custo, não invasivos e de fácil aplicação. 


Figura 1. Exemplos de testes clínicos amplamente utilizados e com bases na psicofísica. Na imagem superior (a) você vê o ambiente de testagem da audiometria, e na imagem inferior (b) está a tabela de Snellen para avaliação da acuidade visual. Fonte das imagens: http://assessmentandinterventiongroup8.wordpress.com/vision/acuity-assessment/ e http://www.audiovozsp.com.br/audiometria.html.

 Outros exemplos de instrumentos e técnicas utilizados na clínica são as curvas de sensibilidade audiométrica da fala, os diferentes exames de acuidade visual, a função de sensibilidade ao contraste, avaliação da visão de cores e testes neurológicos para mensurar a dor. Medidas da percepção são feitas em diversos estímulos. Discriminação de variações de luminância ao longo do espaço, por exemplo, permite uma avaliação da integridade de diferentes células/vias do sistema visual (Figura 2). A partir disso, vários quadros podem ser diagnosticados e monitorados: diabetes mellitos tipo 2, glaucoma, neurite óptica e até quadros de perda de visão sem causa orgânica aparente, como a ambliopia (já falamos sobre ela no blog, e você pode conferir clicando aqui). Medidas como percepção de profundidade, cor, orientação e movimento espacial são, do mesmo modo, importantes na avaliação em diferentes quadros clínicos... Tão importante quanto o estímulo, pode ser a tarefa solicitada. Havia falado sobre discriminação de padrões de luminância (limiar relativo), mas a simples detecção de um estímulo (limiar absoluto), pode ser importante como em quadros de hanseníase (estímulo tátil) e catarata (estímulo visual). 


Figura 2. Exemplos de estímulos visuais elementares de frequências espaciais (a), radiais (b) e angulares (c), que permitem a avaliação da percepção de alterações de luminância no espaço, importantes na avaliação clínica em diversas patologias. Fonte da imagem: http://www.scielo.br/pdf/prc/v14n3/7844.pdf.

 Como se pode perceber, instrumentos clínicos que possuem base psicofísica são utilizados por áreas além da psicologia: fonoaudiologia, fisioterapia, oftalmologia, optometria, etc. Porém, é preciso ainda superar alguns desafios para alcançar um cenário de maior aplicação de métodos psicofísicos na prática clínica. Primeiro, é preciso construir e validar instrumentos de avaliação clínica para a população brasileira. Segundo, estes instrumentos devem ser construídos e aplicados com alto rigor metodológico como no laboratório, mas  que, em contrapartida, sejam viáveis de serem aplicados na prática clínica, em termos de tempo, recursos e conforto para populações com necessidades especiais. É importante fazer uso de alta tecnologia computacional, que permite, por exemplo, construção de programas adaptativos e acesso à equipamentos altamente acurados. A revolução computacional permite, cada vez mais, a diminuição de custos e o aumento da portabilidade em interfaces amigáveis. Por fim, é preciso incentivar a cultura de utilizar dados comportamentais dos pacientes para complementar a avaliação clínica tradicional baseada em exames de imagem e/ou laboratoriais.

Apesar dos desafios, vários grupos de pesquisa espalhados pelo Brasil têm linhas de investigação que buscam edificar pontes entre a experimentação de laboratório e a prática clínica. Para atravessar de um lado para o outro da ponte leva anos de pesquisas e o envolvimento de muitas pessoas! Mas os resultados têm sido animadores, e estudos nacionais têm mostrado alterações subclínicas em diversas populações de pacientes com distúrbios neurológicos, transtornos mentais ou expostas à condições ambientais especiais (desnutrição e contato com químicos, por exemplo). Ainda existem esforços para caracterização da maturação e desenvolvimento do sistema sensorial em crianças, adultos e idosos. Em 2011 a revista Psicologia USP dedicou um volume à psicofísica clínica e reuniu diversos estudos realizados no país, que você pode conferir clicando aqui. Para quem for mais curioso ou está nesta área, também envio um link de um volume do periódico especializado Vision Research de 2013, dedicado a transição da psicofísica de laboratório à avaliação clínica.

Para fechar o texto, queria ainda abordar outro assunto. Até aqui falei sobre a psicofísica clínica dando exemplos de processos básicos realizados pelo sistema sensorial: estimação de limiares por meio de detecção ou discriminação de formas, luminância, cor. Porém, a psicofísica tem abrangência e potencial para além de uma psicologia sensorial e fisiológica, ao abordar operações cognitivas complexas. Vou dar exemplos da minha própria vida acadêmica. Quando ainda era alunos de graduação me envolvi em um projeto que investigava a relação entre toxoplasmose assintomática e acidentes de carro por meio de um paradigma experimental de atenção (clique aqui para saber mais). Hoje eu tenho uma colega de laboratório que mostrou que indivíduos na síndrome de abstinência do álcool não sofrem a ilusão da máscara côncava (clique aqui saber mais). Sendo assim, ela pode vir a servir como um marcador comportamental para o diagnóstico complementar do quadro. Algo semelhante foi mostrado com pessoas acometidas com esquizofrenia e as obras de Dalí, que postamos no blog (e você pode conferir clicando aqui). Mas nem só de diagnóstico vive a psicofísica clínica. Atualmente sou pesquisador visitante em um laboratório que desenvolveu um programa de treinamento perceptual-cognitivo para informações visuais complexas em movimento, algo chamado de "dinâmica de multidão" (crowd dynamics) e que estamos em contato em nosso dia-a-dia. O treinamento beneficia pessoas idosas de maneira equivalente a jovens adultos, e está sendo utilizado pelas forças especiais americanas e por times profissionais de diversas modalidades esportivas (para saber mais, assista este vídeo).

Por fim, vale também ressaltar que a aplicabilidade da psicofísica não fica restrita à clínica. Vários segmentos da indústria tiram proveito deste campo do conhecimento, como a indústria eletrônica, de games, de cosméticos, de alimentos e do marketing. E cada exemplo merece um texto à parte! Em uma série de textos definimos um ramo clássico da psicologia, a psicofísica, mostramos sua importância história e atual, inserida dentro das neurociências, e sua utilização na clínica, bem como apontamos o seu potencial em diversas outras áreas. A partir disso, é fácil perceber que a psicofísica não tem uma importância meramente história ou secundária em relação a outras áreas dentro da psicologia. Se ela não tem o devido destaque dentro das grades curriculares brasileiras, isto não se deve à falta de relevância.

Rui de Moraes Jr.

Para saber mais:

Costa, M. F. (2010). Psicofísica clínica: Ciência básica e sua aplicação na saúde. Revista Psicologia e Saúde, 2(1), 50-55.

Costa, M. F. (2011). Psicofísica clínica. Psicologia USP, 22(1), 15-44.